quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Como tudo começou - parte III (e última)


Não sabia o que se estava a passar, sentia frio e calor, fome e enjoos, tudo ao mesmo tempo. Sentia que o corpo tremia sem controlo, que tinha os pés dormentes e as mãos geladas, o sempre presente peso no peito, a falta de ar e o querer falar, o querer chamar alguém mas não conseguir. Assumi que se tinham enganado nas urgências e que era ali, na minha cama, às 3h da manhã, que ia morrer.

Consegui arranjar maneira de me ouvirem, vesti-me sem qualquer preocupação com a roupa, saí de casa sem me olhar ao espelho, não só porque não queria mas, principalmente, porque naquele momento o meu aspeto era o que menos me importava.

Desta vez, CUF Descobertas, hospital particular, novos médicos, esperança em obter respostas, um diagnóstico conclusivo.
Quando entrámos na ponte, vi Lisboa como nunca tinha visto, senti Lisboa, senti o cheiro, vi as luzes amarelas, que a tornam tão bela, vista da outra margem, a refletirem no rio, com uma beleza inexplicável. Uma leveza de espírito invadiu-me, era essa imagem e a da pessoa que estava comigo naquele carro que eu iria levar comigo caso morresse, era só nisso que consiga pensar. Fechei os olhos para guardar essa imagem até chegarmos.

Desta vez, não houve olhares de pena nem cabeças viradas pela curiosidade, nada. Às 3.30h num hospital privado pouco mais há do que pessoas a fumarem à porta e um silêncio que, de tão profundo, se torna perturbador, que deixa espaço a que sintamos mais, a que sintamos tudo de uma forma muito mais profunda.

Nova triagem, batimentos sem controlo, dor no peito, formigueiro, dificuldade em respirar e medo. Sempre o medo.
Pulseira laranja e entrada direta para o gabinete médico.
Abro a porta e sento-me, a tremer. A primeira pergunta que o médico me faz é avassaladora: "então diga-me lá o que se passa?" Porra!! Isso é o que eu quero saber, eu não posso responder porque essa é a minha pergunta! O que é isto que eu sinto? Que sensação dolorosa é esta que não passa? Que medo é este que nunca ninguém me avisou que era possível sentir? Que angustia é esta que me consome?

De olhos cheios de lágrimas, quase a pedir socorro, mas sem perder o controlo, lá voltei a contar tudo o que, há pouco mais de 12h, e a 300km de distância, tinha contado.
Novo ECG, novas análises, novo tempo de espera e a mesma resposta: NADA. Nada de nada. Garantem-me que não vou morrer de ataque cardíaco, dão-me um sedativo e dizem que apenas preciso de descansar e ter calma. Descansar? Calma? Como se faz isso se até de respirar temos medo?!
Aconselham-me a marcar consulta no médico de família. Assim o fiz: consegui para o dia seguinte às 20h na CUF Alvalade.
Quando saí do hospital, já estava mais calma, mas continuava sem respostas. Cheguei a casa e, mesmo com o sedativo não adormeci, tinha medo, medo de não voltar acordar ou de adormecer e acordar com os mesmos sintomas. Estava com medo do escuro, do vazio, com medo do medo. Agarrei-me à esperança de que a consulta com o médico me traria respostas e tentei ler.

Um tempo depois, o sol começava a nascer, vi os que amo acordarem e perguntarem como eu estava, foi nessa altura que tudo desabou, do nada começo a chorar compulsivamente, a tremer, a não conseguir levantar-me da cama, o cansaço das últimas horas e a imagem daqueles rostos começaram a entrar na minha cabeça como uma bola de neve transformada em avalanche incontrolável, parecia que estava em estado de hipnose, não conseguia pensar em nada, não conseguia controlar a mente nem o corpo e finalmente entendi...: Entendi que já não era dona de mim.

9h da manhã: o médico é só às 20h, dizem-me para ter calma, dizem-me que vai passar rápido mas eu sinto que não vou aguentar.

A manhã passou assim, de dedos entrelaçados e abraços sentidos, de lágrimas de revolta da minha mãe por me ver assim e não conseguir fazer nada para aliviar. Eu não queria comer, não queria andar porque sentia que as pernas iam fraquejar, não queria sair da cama, mas, depois de muita insistência, acabei por tentar. Tentei a sério, com toda a força que sabia ter e com mais alguma que fui buscar, ainda não sei onde.
Desci as escadas amparada e comi, decidi ficar no sofá mas ainda faltava tanto para às 20h.

Para mim, naquele dia, o relógio não marcava segundos mas sim minutos, parecia que já tinha passado uma semana desde a entrada naquela ambulância.
Não aguentei, não resisti até as 20h e por volta das 16h lá fui eu novamente às urgências, eu não me sentia bem e percebi que transparecia esse medo quando a minha irmã me pegou na mão, me pediu para deitar a cabeça no colo dela, num corpo que tem metade do meu tamanho, e me pediu para ficar bem. Senti um dor horrível, a dor de a ver sofrer!

Voltei às urgências, desta vez no hospital Garcia de Horta. Uma fila interminável para a triagem, os sintomas estavam piores que nunca, começo a entrar em pânico, a chorar desesperadamente, viro-me para o J. que, mais uma vez, me levou e digo-lhe "eu vou morrer aqui, por favor não deixes que isso aconteça".

Horas de espera desesperantes, mesma repetição de exames, o meu braço já com marcas negras das agulhas das últimas picadas. Desta vez novidades nas perguntas da médica:

Consome drogas ?
Não.
Tem a certeza?
Sim.
Nem uns charros?
Não.
Tem a certeza?
Sim.
Tem andado ansiosa com alguma coisa nos últimos tempos?
Não.
Tem a certeza?
Sim.
Há algum motivo para ter os batimentos tão acelerados?
Não sei, diga-me a doutora.

Conclusão: exames normais, comprimidos debaixo da boca e uma injeção de líquido no catéter. Receita para calmantes SOS e um adeus quase irónico "as melhoras e não consuma drogas".

A falta de sensibilidade sempre me magoou mas naquele momento nem me importei, a dor que sentia já se sobrepunha a tudo o resto.

Eram quase 20h, ainda dava para ir à consulta, com atraso mas dava.
Chego à CUF Alvalade e o médico já estava à minha espera.
Pela primeira vez depois de tantos exames repetidos e médicos pouco humanos, encontro um que me pega na mão e me diz que não vou morrer e que,  o que quer que se estivesse a passar comigo, íamos descobrir.

Depois de uma hora de conversa mais humana do que médica, saio do consultório com várias folhas de exames para fazer e a sentir-me mais segura, a ver uma luz ao fundo do túnel porque um médico decidiu ir mais além, decidiu procurar a causa, porque um médico me disse "vamos lá ver então o que se passa e vamos resolver". Ia agora começar uma nova fase, a dos exames, a das respostas.

Foi com essa sensação que me deitei nessa noite, de esperança. Se dormi? Não, continuava sem conseguir dormir mesmo com os sedativos que me tinham dado nas urgências, e porquê? Porque depressa me apercebi que o medo de morrer de ataque cardíaco tinha passado mas tinha iniciado um pior, o medo do que os exames iriam acusar. O medo da doença. Ia começar uma nova etapa, uma etapa que se veio a tornar ainda pior do que a que já tinha passado. A etapa da descoberta.

Rita

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