quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Os 10% da medicação.


Hoje em dia, em tom de brincadeira – mas a falar muito a sério, em termos de convicção – costumo dizer que a minha recuperação se deveu, essencialmente, a três grandes fatores, cuja importância distribuo de acordo com as seguintes percentagens:

60% - psicoterapia;
30% - contexto familiar e social;
10% - medicação.

Hoje, gostava de vos falar destes 10% e da minha história com a medicação. Não foi fácil. Nada fácil.

Comecei a fazer psicoterapia no final de novembro, quando os meus ataques de pânico se tornaram mais frequentes e, sobretudo, mais desgastantes e avassaladores.
Escolhi fazer psicoterapia psicanalítica. Questionei esta decisão por várias vezes, mas, hoje, sei que foi a melhor escolha que podia ter feito. Para mim. Esta conversa ficará, certamente, para outro texto, mas o que eu queria, de facto, dizer é que a psicoterapia é um processo demorado, que não tem resultados imediatos – e ainda bem que assim é, porque significa que os benefícios eventualmente alcançados serão benefícios a longo prazo, duradouros, sólidos e constantes.

A verdade é, então, que eu não senti os benefícios da psicoterapia de imediato. Do final de novembro até janeiro vivi um período dramático – com direito a ataques de pânico praticamente diários, a uma hipocondria totalmente limitativa e desgastante, a idas à rua com o coração a sair pela boca, as pernas a tremer, a sensação de “estar a sonhar” (que, depois, vim a saber tratar-se de despersonalização)... Mas não, por incrível que pareça esses meses não foram os meses piores. O pior ainda estava para vir, a seguir.

No dia 25 de janeiro, acedi ir ao psiquiatra. Digo “acedi” porque eu não queria, de facto, ir. Pensei que conseguiria sair do buraco sozinha ou, vá, com a ajuda dos meus amigos, da minha família, da psicoterapia. E, sobretudo, não queria tomar medicação. Não queria mesmo.

A coisa não correu bem. Marquei consulta no hospital público – O hospital Júlio de Matos. Costumo ser a maior defensora dos hospitais públicos e, até então, só tinha coisas boas a dizer. Porém, desta vez, não foi o caso. A minha consulta demorou 5 minutos, no máximo. A médica psiquiatra que me atendeu ouviu-me por breves instantes e medicou-me. Mais nada. Não houve espaço para dúvidas – tantas, numa situação como aquela... -, para confiança, para segurança.

A partir daí foi uma bola de neve. Fui piorando de dia para dia. Não me dei bem, nada bem mesmo com a medicação receitada pela psiquiatra do hospital Júlio de Matos. Aos sintomas que já tinha, juntaram-se outros quantos. Os ataques de pânico transformaram-se num estado constante e diário, que dava aso a desespero e angústia que aumentavam, não paravam de aumentar. Confesso: não sabia o que fazer.

Se já era cética em relação à medicação – no geral, e não só à medicação psiquiátrica -, mais cética fiquei. Não queria tomar mais nada, só queria parar os comprimidos, mas, ao mesmo tempo, sabia que não os podia parar assim, de repente.

No dia 1 de março, novo psiquiatra – recomendado pela minha psicoterapeuta -nova consulta. Nova medicação. Eu não queria, mesmo, passar por tudo novamente. Só queria ficar bem, por magia, só queria estalar os dedos e voltar a sentir-me normal, a sentir-me eu. Para mais, ouvia opiniões por todo o lado – na melhor das intenções, sem qualquer dúvida, daqueles que só queriam o meu bem e que estavam preocupados comigo. Por um lado, diziam-me que a medicação me ia fazer bem. Por outro, que só me ia fazer mal. Eu, que não estava capaz de discernir sobre o que quer que fosse, não sabia mesmo o que fazer.

Foi, mais uma vez, um início complicado. Medo, muito medo dos comprimidos, dos efeitos secundários, das consequências que poderiam provocar em mim. Ainda para mais, hipocondríaca que é hipocondríaca não resiste a ler as bulas de cada um dos comprimidos receitados. Uma bula para um hipocondríaco é mais ou menos como o sol para os albinos: perigoso.

Comecei a tomar a medicação no dia 1 de março. Mantém-se até hoje. Manter-se-à até setembro. Tive a minha última consulta no psiquiatra no dia 24 de maio e a resposta dele, quando lhe pedi para deixar os comprimidos, foi peremptória – 6 meses de medicação. Sob pena de recaída. E bla bla bla. Paciência. Não faz mal. Aceitei, tive de aceitar.

Os comprimidos tiveram os seus benefícios – os tais 10%. O principal, para mim, foi ter passado a dormir. Na fase marada, deixei de dormir. E precisava de dormir. Os comprimidos atenuam uma ansiedade momentânea. Não curam. Ajudam. Ajudam momentaneamente nos momentos críticos. É esta a minha visão.

Preferia, como é evidente, não ter tomado nada. Ter ficado bem sem recorrer a psicofármacos. Mas já sou adulta o suficiente para saber que nem tudo na vida depende das nossas escolhas e dos nossos quereres. Teve de ser. Foi

Teresa

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