sábado, 6 de agosto de 2016

O medo da descoberta.



As primeiras semanas desta luta são difíceis, por várias razões. Para mim, a primeira e mais complexa é entendermos por que deixamos de ser nós, por que razão as nossas atitudes mudam, a nossa vontade de sair deixa de existir, o nosso sorriso desaparece e o nosso corpo não pára de tremer e de apresentar sintomas dolorosos. A segunda é tentarmos perceber do que é que temos medo, por que razão, do nada, começamos a ter medo de tudo. O nosso corpo pensa que está em perigo e reage acendendo o rastilho do medo, o medo de morrer.  A terceira é a vergonha. A vergonha de que os outros saibam, que notem. É sobre esta terceira que quero falar.

Eu tinha muita vergonha por estar a passar aquela fase, não queria que os meus amigos se apercebessem que estar num jantar era um sacrifício enorme e que estava agarrada ao telemóvel a ver vídeos para tentar ocupar a cabeça e não me deixar levar pelo medo. Medo de que ?? Não sei, ainda hoje não sei, mas ele estava lá. Não queria estar num restaurante e ter que sair a correr para apanhar ar porque, do nada, o coração disparava ou não conseguia respirar. Não queria ir às compras porque sabia que, a qualquer momento, podia ter que chamar o 112. E esse tal medo de que os outros notem, de que algo aconteça, é ainda pior no trabalho. A última coisa que eu queria era que os meus colegas percebessem que eu tinha deixado de ser eu, mas como podemos fingir ser  alguém  que desaprendemos a ser?
Eu sou aquela pessoa que chega ao trabalho com um sorriso e diz um bom dia cheio de energia, que faz trocadilhos e conta piadas, que ri à gargalhada até chorar e que tem sempre interesse em ouvir os outros.
Passei a ser uma pessoa que chegava tarde, triste, que não dava o bom dia nem sorria à gargalhada, era simplesmente um bibelô de auscultadores nos ouvidos, que não queria ouvir ninguém e que tentava ganhar concentração para fazer o que me competia. Tentei manter-me assim até ter um ataque de pânico em plena tarde de trabalho.

Quando aconteceu, as pessoas que já me conhecem e que desconfiavam que algo se passava passaram a ter a certeza de que não era apenas mau feitio, era algo pior. É no momento em que chegamos a este ponto que temos duas soluções: fugimos e não dizemos nada, metemos baixa e ficamos no nosso canto, sozinhos, ou abrimos o jogo e assumimos que não estamos bem, que precisamos de ajuda.

Eu acabei por misturar as duas. Fiquei uma semana de baixa por imposição médica, porque não dormia há uma semana mas tentava todos os dias apanhar o comboio, chegar ao trabalho e fazer o que estava planeado, mas também contei que não estava bem. Tive de contar, tive que deixar a vergonha num canto bem pequeno, corar, e contar que não estava bem, que não conseguia produzir, não me conseguia concentrar.
Este "desabafo" perante os colegas tem duas consequências, na cabeça de alguém que sofre este tipo de problema: o alívio, por deixarmos claro que não é falta de profissionalismo mas algo patológico, e o medo de que os nossos superiores pensem que não somos capazes, que nos coloquem um rótulo de "doente mental" e que nos retirem responsabilidades ou não nos deixem progredir. Não é fácil fazer a escolha, não é fácil desabafar sabendo os riscos que corremos mas também o que podemos fazer? Ficamos fechados num casulo onde só existimos nós? De que nos serve respirar se não vivermos? Se não sorrirmos? Se não nos orgulharmos de quem somos e do que podemos ainda vir a ser?

Não é fácil, aliás, é muito difícil, admitir que tenho um problema psicológico que vem e vai sem qualquer aviso, que me derruba todas barreiras. Passado todo este tempo continuo a ter momentos no trabalho em que tenho que me sentar na casa de banho e chorar , chorar até o peito parar de doer. Depois respiro fundo, enxugo as lágrimas, lavo a cara e volto. Muitos não notam, mas é bom saber que os que notam não me vão julgar, vão acenar com a cabeça e sorrir como quem diz "força".

Podem dizer que tenho sorte em ter colegas destes, e é verdade, tenho, mas também é verdade que fui eu que deixei cair a barreira, derrubei o forte que estava a construir e permiti que eles se mostrassem assim.

Com a família mais próxima aconteceu o mesmo. A partir do momento em que sabemos que podemos ligar e falar durante 1h, trocar mensagens um dia inteiro, dizer os maiores disparates médicos (porque naqueles momentos adquirimos um diploma médico e pensamos que estamos certos em relação ao perigo de vida), tudo se torna mais fácil.

O passo entre deixarmos de ter vergonha e admitirmos o problema é gigante e doloroso mentalmente, não é o mesmo que contarmos que temos diabetes, é muito mais complexo que isso devido ao estigma que existe em relação às doenças mentais (como se o cérebro não fizesse parte do corpo), mas, depois de dado, compensa tanto!!

Não sintam vergonha, não precisam de abrir o livro da vossa vida, mas admitam que não estão bem, basta dizerem "estou a passar por uma fase complicada", não pensem que o casulo é mais seguro que o abraço de um amigo ou o simples olhar de um colega de trabalho. Não é, é mais solitário e infeliz e, acima de tudo, é um casulo que em vez de se transformar numa borboleta, se transforma  num poço, um poço que nos afunda para um estado que ninguém deveria experimentar.

Somos 7 biliões de pessoas no mundo, aproveitemos isso!

Rita

2 comentários:

  1. Olá, revi-me em quase todas as tuas palavras, sou bipolar demorei a aceitar esta doença mas quando aceitei e comecei a tomar medicação todo o meu mundo mudou parece que era míope de ultimo grau e finalmente me deram uns óculos com a graduação correcta, saí à rua como todos os outros dias mas com uma atitude diferente, as pessoas já não me intimidavam já não me sentia inferior a tudo e todos passei a desfrutar da vida e do amor por mais torto sincero ou desnivelado que fosse. Tive uns anos bem, claro que havia aquelas fases menos boas que vão e voltam mas aceitei a minha doença e tentei manter-me racional e esperar que as crises passem repetindo para mim que é uma fase que não é real que é o meu cérebro que às vezes 'avaria' e tentava ignorar e afastar os pensamentos negativos.

    Entretanto a minha vida mudou, mudei de país vivi 2 anos no estrangeiro e depois voltei, voltei para aquilo que me fez fugir para fora do país (um coração despedaçado). desde que emigrei que uma tristeza se apoderou de mim e foi crescendo e crescendo tornando-se num monstro demasiado grande para as suas pernas curtas e aqui está em cima de mim sem se mexer e a alimentar-se da minha energia. Afastei-me de amigos, potenciais amigos senti que a medicação já não funcionava experimentei tomar dia sim dia não, 2 comprimidos em vez de 1 estar uns tempos sem tomar mas nada mudou, nada muda.

    Estou cada vez mais sozinha mais isolada, não me consigo relacionar com ninguém mais que superficialmente não crio laços com ninguém sinto-me sózinha e aterrorizada quando tento conviver com alguém, fico nervosa dá-me uma ansiedade incrivel momentos de silencio junto de outras pessoas...

    enfim...

    não me sinto à vontade para tirar a mascara e assumir que tenho um problema no meu trabalho e só os meus amigos mais chegados e alguma familia sabem deste problema. até da minha irmã me afastei, também vive no estrangeiro e veio passar 2 semanas em portugal e tudo o que ela fazia que fosse contra o que eu achava 'correcto' me magoava como se fosse o fim do mundo. Afastei-me porque não suporto ver as pessoas a afastarem-se de mim...tomo a iniciativa. Tenho consciencia de tudo se me puser a analisar o meu comportamento como se estve a ver outra pessoa mas não consigo reagir de outra forma.

    a palavra suicidio sempre ecoou na minha mente, tenho tentado ignorar chamar-me à razão comparar com pessoas com problemas reais problemas sem solução e que no entanto enfrentam a vida mas o negativo esta nuvem negra não sai da minha cabeça...

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    1. Em primeiro lugar força ! Em segundo coragem. Essa coragem está aí , dá para ver que está. Não é necessário que se assuma algo no trabalho , mas é verdade que facilita.

      O ficarmos fechados no nosso canto é que não nos salva. Porque se afasta das pessoas ? Já pensou que algumas podem surpreender ? A vida tem muita coisa boa .. O que prende a ela são os pequenos momentos.

      Desabafar , chorar , termos o nosso tempo , faz bem .. Ter alguém que saiba o que se passa e poder estar o tempo todo !

      A vida tem muita coisa boa ! As fases más parecerem infinitas mas com a ajuda correta é possível.

      Há um livro do meu psiquiatra que conta a história de uma doente bipolar e como conseguir sair "a vida num degrau".

      Acredito que toda a força e coragem estão aí dentro! Tudo vai correr bem , o final vai ser feliz e lembre-se sempre sempre ... É nas pequenas coisas que encontramos o motivo para sorrir e para seguir em frente!

      Nós estamos aqui para tudo que nos for possível. Desabafe, peça ajuda , no que podermos, iremos ajudar!

      Muito obrigada

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