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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Quando o Google se torna o nosso pior inimigo



Pára, não tecles, não cliques, não faças nada, não penses sequer. Esconde o telemóvel, o computador ou qualquer outra coisa que tenha acesso à Internet, mas, por favor, pára, não vás ao Google!

A razão é simples: o Google, ou qualquer outro motor de pesquisa, não te vai dar a resposta que queres. Vai, sim, fazer com que esse sintoma, ou qualquer outro, que estás a experimentar, seja sinónimo de algo tão grave que te vai provocar uma onda de novos sintomas, maiores ainda que o primeiro. Pior: Sintomas que te levarão a mais pesquisas e a novas conclusões, num ciclo desenfreado de doenças, que te "pedem" que comeces já a dizer adeus aos teus familiares, ao teus amigos e, quem sabe, até aos teus inimigos.

O Google foi fundado em 1998 e tem um slogan curioso: "don't be evil". A sua missão declarada consiste em "organizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil". Pois, é aqui que reside o problema de que te quero falar.

Qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pode escrever o que quiser e tu, aí, ou do outro lado do mundo, podes obter qualquer informação através de uma simples palavra-chave. 

Todos nós já usámos o Google e sabemos o quanto nos pode ajudar, seja para tirar dúvidas numa discussão de amigos, seja para escrever artigos, ouvir música ou ver a nossa série preferida que alguém resolveu (de forma pirata, provavelmente) difundir para o mundo. O problema surge quando os cibernautas decidem dar uma de pseudo-médicos (pessimistas por sinal) e responder a questões ou até escrever artigos que têm tanto de científico como eu tenho de Bruce Lee.

Claro que há respostas fundamentadas, há artigos baseados em anos de pesquisa e assinados por profissionais de excelência mas, acredita, não é nesses que te vais focar (por mais que tentes)! É nos outros, que, sem qualquer base científica, te levam a acreditar profundamente que a tua esperança média de vida acabou de cair drasticamente. Isto é, que já só tens alguns meses de vida para aproveitar o sol, o cheiro a mar,  o sabor da tua comida favorita e os abraços dos que mais amas.


Enquanto o teu coração acelerar e as tuas mãos tremerem, enquanto sentires o teu corpo a ficar dormente e dificuldade em respirar, enquanto te sentires com tonturas e dores de cabeça, não é nos poucos títulos que te sugerem, por exemplo, “ataques de pânico” ou “ansiedade” que vais acreditar. É, sim, nos outros, naqueles que – infelizmente – estão em maioria, naqueles em que palpitações são sinónimo de ataque cardíaco, uma dormência indica claramente esclerose, tonturas, tremores e arrepios não podem ser algo senão um qualquer tumor ou uma qualquer doença rara cuja incidência não passa os 2%. E, aqui, surge uma outra questão: mesmo que a incidência seja de 2%, tu vais-te lembrar das três pessoas de olhos verdes que conheces e pensar que também só há 2% de probabilidade de alguém ter olhos verdes no mundo e, claro, vais-te convencer que afinal é bastante provável teres essa tal doença rara.

Há então, aqui, dois grandes problemas, afinal de contas: o do Google, que tem informação a mais e, até quem sabe, maioritariamente incorreta, mas também o nosso. O de só nos focarmos na tal informação incorreta. Sim, eu sei que não é uma questão de opção. Sim, eu sei que  não conseguimos que seja de outra maneira. Sim, eu sei que, fisicamente, todos os sintomas coincidem, um por um. Sim, eu sei que mentalmente não estamos capazes de perceber e aceitar que esse tal batimento não é um ataque cardíaco, que aquela dormência não significa necessariamente esclerose ou que as tonturas não serão, muito provavelmente, causadas por um tumor cerebral. A verdade é que a nossa cabeça está a ser enganada, constantemente, e o pior é que o senhor Google aparece para lhe dar razão.

Tens sintomas que não entendes? Vai ao teu médico, liga à Saúde 24, marca uma consulta ou vai às urgências. Por muito que te custe, é aí que vais obter as respostas de que precisas e não nas 500 linhas de pesquisa que ficam a sujar o histórico do teu computador. 

Por experiência própria, digo-te que a "medicina googliana" me diagnosticou um tumor no pulmão, um outro cerebral e esclerose múltipla, sem margem para dúvidas, porque eu tinha os sintomas todos, claro (na minha cabeça, pois). Comecei logo a pensar em despedir-me do Sol, do cheiro do mar, da minha comida favorita e dos abraços dos que mais amo.

Por experiência própria, te acrescento que não havia razão para me despedir de nada nem de ninguém, há sim para aproveitar mais e mais, todos os dias.

Por isso, esquece as pesquisas sobre esses sintomas, não acredites em quem escreveu respostas sem qualquer fundamento científico porque, digamos, desrespeitou o slogan do Google... E, sobretudo racionaliza! Porque nos queixaríamos tanto da falta de médicos se a única coisa que precisássemos deles fosse uma prescrição médica para os comprimidos de combate às doenças que o Google já fez "o favor" de nos diagnosticar ?

Sim, eu fui buscar o computador, teclei e pesquisei para escrever este texto (afinal precisava saber o ano de fundação, o slogan e a missão do Google), mas é precisamente para isto que ele serve: para utilizarmos informação útil que alguém, num ponto qualquer do mundo, escreveu e não para diagnosticarmos doenças explicativas dos nossos sintomas físicos e/ou psicológicos. Para isso, estão cá profissionais competentes e especializados, que, mesmo não sendo muitos, valem mais do que os milhões de bytes de informação sem qualquer fundamento que vais encontrar. 

E agora? Já vais parar?

Rita

Eu, hipocondríaca, me confesso.


Sou hipocondríaca. Sou mesmo hipocondríaca. Há quanto tempo? Ora bem... Será que “desde sempre” conta como resposta? Claro que há fases e fases, há momentos de maior e menor intensidade na escala da hipocondria, há milhares de fatores a condicionar essa mesma intensidade. Mas lembro-me de, por exemplo, ser pequenina – aí no alto dos meus 10 ou 11 anos – e perguntar ao meu pai: “papi, acha que eu tenho mononucleose?”. Pronto, só para verem o género.

Ora bem, em jeito de desabafo, queria só dizer o seguinte: é muito difícil ser-se hipocondríaco, caramba!

Vejamos, então:

-       Ser hipocondríaca é acreditar, quase constantemente, que padecemos de uma qualquer doença grave;
-       Ser hipocondríaca é prestar atenção ao mínimo sinal do nosso corpo como se presta atenção a um filho recém-nascido;
-       Ser hipocondríaca é fazer de uma simples dor de cabeça um tumor cerebral gravíssimo ou de um mero aperto no peito um ataque cardíaco fulminante;
-       Ser hipocondríaca é encher o histórico do nosso computador  com pesquisas sobre doenças e sintomas, até todas as entradas do Google ficarem cor-de-rosa – sinal que já abrimos todas as páginas possíveis e imaginárias;
-       Ser hipocondríaca é ter vontade de fazer exames a tudo e a mais alguma coisa com a frequência com que se vai dar um passeio ao jardim ou, diria até, com a frequência com que passamos um recibo verde no trabalho ao fim de cada mês;
-       Ser hipocondríaca é chegar a qualquer consulta médica com o diagnóstico já feito, sem margem para qualquer dúvida, descredibilizando quem, realmente, perceberá do assunto (espera-se!). 



E por aí fora. Ser hipocondríaca é muito mais que isto. Ser hipocondríaca pode ser desgastante. Extenuante. Mas vá, pode ter algumas vantagens... Ora, deixem cá ver...

-       Estar mais e melhor informado sobre a nossa saúde? Claro, se não nos deixarmos envolver pela ansiedade e pela angústia que o sr. Google muitas vezes nos oferece e se soubermos escolher a informação adequada, nos locais adequados;
-       Fazer check-ups de saúde regularmente, como é aconselhável? Com certeza, desde que não corramos para o hospital ao mínimo sintoma, numa profunda angustia e com a certeza que é desta que vamos desta para melhor.

Bom... Em jeito de conclusão: sou hipocondríaca, sim senhores. Vivo com a minha hipocondria como quem vive com o facto de ter o cabelo loiro. É uma parte de mim. Mas, hoje em dia, tento controlá-la e tento que não limite o meu dia-a-dia. A minha vida. Encaro-a como uma parte de mim, não como uma doença limitativa – como, em tempos, já foi.

Há por aí alguém que queira desabafar em conjunto comigo? Mais alguém que padeça deste grande mal da humanidade chamado hipocondria? 

Teresa