sexta-feira, 15 de julho de 2016

Como tudo começou - parte I.

Férias, finalmente !

Depois de vários meses sem descanso, com prazos para cumprir, necessidade de provar do que sou capaz, de dar tudo, rodeada de paredes monocromáticas, computadores e roupa formal, chegam finalmente as férias.
É páscoa. Cheira a amêndoas e a folar, anseio pelas reuniões familiares e pela tradição própria desta época, a mesa com a toalha bordada, o prato com amêndoas e a jarra de flores brancas a darem as boas vindas ao padre da aldeia que oferece a cruz a quem a quiser beijar. Na minha aldeia isto ainda acontece, as portas ainda se abrem, as pessoas ainda se juntam à volta da mesa, não sei se por fé ou por tradição. Eu gosto de tradições.

Estou de viagem, destino - Mangualde. Vou em plena A1, penso na minha vida, nos últimos meses e digo para mim mesma, "porra, sou feliz". Passam 3 horas e chego a casa, vejo o sorriso da minha mãe e recebo o abraço apertado da minha irmã. Está tudo perfeito, as férias podem começar.

Os dias passam, as tradições cumprem-se, a família vai-se reunindo e a felicidade continua cá, inteira, plena, até que chega a altura de voltar às paredes monocromáticas, de fazer a viagem de retorno. As férias estão quase a terminar.

É o último dia na minha aldeia, arrumo as coisas, digo adeus ao meu cão e vou dar um beijo na face à minha avó que chora e repete sempre as mesmas palavras "vai com cuidado minha menina, nunca sei quando é a última vez que te vejo". Gestos e palavras que se repetem há 12 anos.

Deixo a aldeia e as tradições, mas não deixo as pessoas mais importantes da minha vida. Essas vêm comigo para Lisboa até esgotarmos todos os segundos que nos são permitidos - são elas a minha mãe e a minha irmã de 9 anos, uma princesa que faz jus ao nome Matilde ( a guerreira ).

Saímos de Mangualde a falar sobre o que vamos fazer quando chegarmos ao nosso destino, Lisboa. A música toca na rádio, o tempo está bom, as 3 horas vão passar rápido.

Meia hora de viagem e o meu coração dispara, assim sem aviso prévio, do nada, num ritmo louco, desenfreado e sem qualquer lógica. Respiro fundo, o ar custa a entrar, expirar torna-se doloroso. Tento beber um pouco de água e noto que as minhas mãos estão suadas, tremem, a água balança ao ritmo dos tremores. Tento, mais uma vez, controlar a respiração, mas desta vez sinto que o peito começa a arder, um ardor que queima, involuntariamente levo a mão ao coração e penso "ele vai rebentar". O braço começa a ficar dormente, a dor no peito insuportável e o coração cada vez mais acelerado. Não dá para controlar mais , não dá para seguir viagem , o destino já não pode ser Lisboa.

Ligo para o 112, o carro fica parado na berma do IC enquanto espero pela ambulância. Não demorou mais do que 15 minutos, talvez os 15 minutos mais longos da minha vida. Entro na ambulância a tremer com a mão contra o peito, a agarrar, metaforicamente, o coração com a força de quem quer agarrar a vida a qualquer custo.

A ambulância arranca, não me lembro das perguntas que me foram feitas, lembro-me apenas das das curvas da uma estrada que parecia interminável e de sentir um medo terrível, o medo de morrer. 

Rita

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