terça-feira, 26 de julho de 2016

Remédios mágicos.


Há remédios que somos obrigados a tomar, por mais que lutemos contra isso, por mais que digamos que não, que não precisamos deles para nada, que conseguimos alcançar o sucesso sem eles. A verdade é que chega uma altura em que os químicos têm mesmo que fazer parte do nosso dia a dia como se de uma refeição se tratasse. Eu sempre fui contra químicos, talvez por isso tenha feito reação a eles quando iniciei tratamento (disso falarei num próximo post). Porém, depois de ter tudo explicado e de me mentalizar que tinha mesmo que os tomar, que a seguir ao pequeno almoço, ao lanche e ao jantar tinha de colocar aquelas "gomas químicas" na boca, os comprimidos lá passaram a ser uma rotina à qual me habituei.

Mas, como eu estava a dizer, há remédios farmacêuticos sim, mas depois há outros, os que não contêm quaisquer químicos e aos quais chamo "remédios mágicos".

O meu remédio mágico entrou na minha vida no dia 8 de Maio de 2016, camuflado numa bola de pêlo castanha, de olhos verdes assustados. Dei-lhe o nome de Uva e revi-me nela no momento que a peguei ao colo. Encolhida, a tremer, com o medo do desconhecido a iluminar aqueles olhos, que diziam "porque me tiraste do meu mundo? Do mundo que eu conhecia ? Quero voltar ao sítio onde estava feliz, à minha mãe. Leva-me de volta". Mas, nesses mesmo olhos, estava também escondida uma vitalidade enorme e uma vontade de brincar, saltar e correr o mundo. Uma vontade de se agarrar a mim como se eu fosse agora o novo mundo dela. Uma necessidade de se adaptar e ser feliz.

As primeiras noites dela não foram fáceis, tal como as minhas primeiras semanas desta fase marada não foram. Os dias seguintes foram vividos passo a passo, a ganhar confiança, com novas conquistas, com o medo do desconhecido a ir passando, tal como as minhas semanas seguintes também foram. Ela foi crescendo à medida que eu fui melhorando.

O médico mandou-me fazer exercício - no mínimo, caminhadas - numa altura em que eu mal conseguia sair de casa. Eu não queria sequer tentar, mas o meu remédio mágico queria, o meu remédio mágico puxava a trela e lá tínhamos que ir. Eu não queira falar nem ver ninguém, mas o meu remédio mágico queria brincar com outros cães e queria correr, pular. O meu remédio mágico obrigava-me a falar com os vizinhos e a sorrir. O meu remédio mágico saía de casa aos saltos mesmo quando eu estava "de rastos". Mas, depois, era o meu remédio mágico que chegava a casa "de rastos" e era eu quem chegava aos saltos.
Aos saltos porque consegui abrir a porta e sair, porque consegui caminhar, porque consegui falar com pessoas, porque consegui rir, porque me senti eu. Porque percebia por momentos que não me limitava a existir, eu estava a viver.

O meu remédio mágico foi crescendo à velocidade que a minha pior fase foi passando.
Os comprimidos podem manter-me calma, podem ajudar-me a dormir e a controlar humores, mas não me fazem sair de casa, não me fazem conhecer pessoas, não me fazem sentir viva.

Os comprimidos tocam-me na mão e eu sinto-os no estômago, o meu remédio mágico lambe-me a bochecha e eu sinto-o na alma. Quando aquele olhar meigo se vira para mim, quando aquelas corridas de saudade me atingem, quando aquelas patas me tocam enquanto lágrimas me caem, tudo passa, por segundos, minutos ou horas, não interessa. O meu remédio mágico não me cura, mas faz-me esquecer os efeitos secundários dos outros que têm esse propósito.

Os animais amam-nos como nós deveríamos saber amar.


O meu remédio mágico é uma labradora castanha de nome Uva, que me tem ensinado que não é preciso muito para se ser feliz. A Uva precisa apenas de água, comida e amor, tão simples quanto isto... É preciso perguntar porque achamos nós que precisamos de tantas coisas mais?

O meu remédio mágico é o meu complemento suplementar diário obrigatório, a minha companheira, o meu placebo preferido.
A Uva vai crescer e eu quero crescer com ela, quero ter a oportunidade de lhe dar tudo o que ela, sem saber, me tem dado.

Aqueles olhos continuam meigos, mas, agora, nada assustados, aquela vitalidade brotou e não desaparece, só tende a aumentar, aquela bola de pelo que eu abracei com o coração no dia 8 e na qual me revi está diferente, mas hoje, quase 3 meses depois, continuo a abraçá-la e a rever-me porque também eu estou diferente, porque o medo deu lugar à força, a vitalidade escondida deu lugar à vontade de viver com mais alma, o receio de ficar sozinha deu lugar à necessidade de conhecer pessoas e de as ajudar no que me for possível.

Continuo a depender dos outros remédios sim, mas sei que é por pouco tempo, já em relação a este, ao mágico, este será para toda a vida!

Rita

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