Uma
das coisas que a minha fase marada
trouxe consigo, sem pedir autorização, foi o medo. O medo descontrolado, o medo irracional, o medo de tudo, o
medo do medo.
Durante
uns meses, vivi com medo. Ou melhor: deixei
de viver, por causa do medo. Tudo começou com o medo das doenças – esse,
mais conhecido por hipocondria, que sempre me acompanhou, mas que não me
limitava, não limitava o meu dia-a-dia, não limitava a minha vida. Depois de
estar instalado, é difícil que o medo não se alastre. Não se generalize. Não se
torne, agora sim, absolutamente impeditivo. No meu caso, tornou-se, de facto,
impeditivo, em muito pouco tempo.
Várias coisas, básicas, do meu
dia-a-dia, que outrora considerava inabaláveis, simples e até intuitivas, foram afetadas pelo medo. Ficaram para
trás. Sem que eu conseguisse, sequer, encará-las, ou sem que pensasse, sequer,
em tentar enfrentá-las.
Hoje,
escrevo este texto durante uma viagem de
comboio, o Intercidades, até ao Porto. Ora aqui está uma das coisas a que
me referia há pouco: andar de comboio para mim sempre foi algo simples,
intuitivo e – mais ainda – agradável e confortável. Deixou de ser. Há uns meses, não conseguia sequer conceber
a ideia de me enfiar num comboio,
durante 3 horas, e partir para uma cidade que não a minha, longe da minha casa.
É, o medo pode mesmo limitar a nossa vida. Eu bem sei o que isso é.
Por
circunstâncias da vida, circunstâncias muito boas da vida, vi-me obrigada, no dia 20 de maio, a apanhar o
Intercidades, pela primeira vez desde a fase
marada. Sim, eu já não estava nessa fase a 20 de maio. Mas o medo ainda
estava lá. Porquê? Porque ainda não o
tinha enfrentado.
Passados
dois meses, já apanho qualquer comboio com a naturalidade de antigamente. Se já não fico nem um bocadinho ansiosa?
Estaria a mentir se dissesse que não. Fico, sim senhores. Porém, há aqui uma
grande – a principal, acho eu – diferença: esta
ansiedade, este medo, já não me limita. Já não me impede. Eu sinto o medo, eu
aceito-o, mas eu enfrento-o.
Foram
precisas algumas estratégias, sim. Foi preciso algum trabalho, claro. Mas
digo-vos, muito honestamente: que sensação
do caraças.
Teresa
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