Entrei
no hospital numa cadeira de rodas.
Naquele
momento não pensava em mais nada a não
ser viver, nunca tinha sentido aquele medo, nunca tinha sequer imaginado a
possibilidade de que podia morrer. À medida que me iam levando, que me
empurravam naquela cadeira, não consegui deixar de reparar na cara das pessoas
que se iam afastando, das que iam "abrindo alas", para eu passar.
Não consegui distinguir o sentimento
naqueles olhares, não sei se eram de pena, de compaixão ou simplesmente de
espanto por verem uma rapariga de 29 anos de olhar assustado, sentada numa
cadeira de rodas, com uma mão fixa ao
peito a agarrar um coração invisível e a outra descaída, dormente, como se não
fizesse parte daquele corpo.
As
cabeças viravam-se para me ver, as pessoas olhavam-me por segundos e desviavam
o olhar com a mesma rapidez, como se sentissem vergonha da curiosidade que as
levou a observarem-me. Percebi que os meus olhos deviam refletir o medo que
sentia, o medo de morrer, o medo de tudo. Nunca
me senti tão pequena, tão desprotegida, tão vulnerável.
Gabinete de triagem, batimentos a 190,
tensão arterial completamente alterada, glicémia a níveis elevados.
Pulseira
laranja no pulso, ironicamente naquele que não descolava do peito, e mais uma
volta de cadeira de rodas, desta vez para um corredor de espera que me pareceu
interminável, abismal, entupido de macas e de cadeiras de rodas. Os gemidos
faziam eco naquelas paredes, o sentimento de dor era cortante, os heróis de
bata branca corriam de uma lado para o outro, ajudavam os que podiam, mas, nem
assim, os gemidos abrandavam. Pedi água, tinha a boca seca, aquele corredor
sufocava, cada vez me parecia mais estreito, queria sair dali, não queria ouvir
os gemidos, não queria sentir aquele cheiro, não queria sentir nada, desejei não ter 5 sentidos naquele momento,
fechei os olhos e esperei.
Os
minutos passavam, os heróis continuavam a correr mas ninguém me chamava. Comecei
a sentir-me tonta, a ouvir tudo muito longe, agarrei a mão da pessoa que esteve
sempre ao meu lado, com toda a força que consegui, e disse "acho que vou morrer aqui".
Chamaram-me
finalmente. Depois de falar com a médica, levaram-me para uma sala, agora numa
maca. Tiraram-me sangue e fizeram um ECG, pediram que me sentasse novamente na
cadeira de rodas e que esperasse. Desta vez, não me sentei, não queria sentir
os olhares, não queria voltar para o sítio dos gemidos que não me saíam da
cabeça, continuava a agarrar o peito e a pensar que ia morrer. Mas ia aguentar
tudo isso em pé, pelo menos enquanto me fosse possível.
Não
sei quanto tempo passou até me chamarem novamente. Lá fui, desta vez a
caminhar. Injetaram-me qualquer coisa, não senti a agulha mas senti o líquido a
entrar, não perguntei o que é que me estavam a fazer. De seguida, tomei 2
comprimidos e, mais uma vez, não quis saber porquê, eu só tinha uma pergunta em
mente "Isto vai-me salvar?".
Entretanto,
vi um esboço de um sorriso que me aliviou e ouvi palavras que me ajudaram "vais ficar melhor sim, a médica já
fala contigo".
A
médica falou, não me deu qualquer explicação para o sucedido, as análises
estavam boas e o ECG não indicava qualquer alteração. Tudo o resto que me foi
dito eu já não me lembro de ouvir, os meus olhos começaram a ficar pesados, o
corpo sem força, um sentimento de embriaguez apoderou-se de mim. Percebi, então, que me tinham dado
calmantes ou sedativos.
Eu
já não precisava de ouvir mais nada, já não precisava de estar ali. De um
momento para o outro, passei a sentir-me nas nuvens, de um momento para o outro
o coração já não parecia querer rebentar, de um momento para o outro as mãos já
não tremiam e o braço já não estava dormente. Libertei finalmente a mão que
agarrava o coração e deixei-me ir naquele estado esquizofrénico de sonolência,
de leveza. Não me sentia viva, mas
também não sentia medo de morrer, na verdade eu não sentia nada, e não sentir
nada era tudo naquele momento.
Entrei
no carro. 4 horas depois a viagem para Lisboa ia continuar, sabia que ia
adormecer e pensei que quando acordasse tudo iria estar bem. Seria como se tudo não tivesse passado de
um pesadelo. Os planos que tínhamos iniciado quando saímos de Mangualde não
sofreriam qualquer alteração.
Chegámos,
finalmente, a casa. Dei o beijo de boa noite aos meus, como sempre faço, e
deitei-me. Irrefletidamente levei a mão
ao peito e adormeci.
Acordei
às 3h da manhã. O efeito dos comprimidos já tinha passado e voltei a sentir
tudo de novo, mas não da forma como eu
esperava. Não senti o alívio de quem acorda de um pesadelo.
Às
3h da manhã acordei numa cama encharcada em suor, com todos os sintomas que me
fizeram chamar aquela ambulância no IC. Às
3h da manhã senti novamente aquele medo, o incontrolável medo de morrer. Mas
afinal, o que se passava comigo?
Rita
Sem comentários:
Enviar um comentário