quinta-feira, 21 de julho de 2016

Como tudo começou - parte II


Entrei no hospital numa cadeira de rodas.
Naquele momento não pensava em mais nada a não ser viver, nunca tinha sentido aquele medo, nunca tinha sequer imaginado a possibilidade de que podia morrer. À medida que me iam levando, que me empurravam naquela cadeira, não consegui deixar de reparar na cara das pessoas que se iam afastando, das que iam "abrindo alas", para eu passar.
Não consegui distinguir o sentimento naqueles olhares, não sei se eram de pena, de compaixão ou simplesmente de espanto por verem uma rapariga de 29 anos de olhar assustado, sentada numa cadeira de rodas, com uma mão fixa ao peito a agarrar um coração invisível e a outra descaída, dormente, como se não fizesse parte daquele corpo.
As cabeças viravam-se para me ver, as pessoas olhavam-me por segundos e desviavam o olhar com a mesma rapidez, como se sentissem vergonha da curiosidade que as levou a observarem-me. Percebi que os meus olhos deviam refletir o medo que sentia, o medo de morrer, o medo de tudo. Nunca me senti tão pequena, tão desprotegida, tão vulnerável.

Gabinete de triagem, batimentos a 190, tensão arterial completamente alterada, glicémia a níveis elevados.
Pulseira laranja no pulso, ironicamente naquele que não descolava do peito, e mais uma volta de cadeira de rodas, desta vez para um corredor de espera que me pareceu interminável, abismal, entupido de macas e de cadeiras de rodas. Os gemidos faziam eco naquelas paredes, o sentimento de dor era cortante, os heróis de bata branca corriam de uma lado para o outro, ajudavam os que podiam, mas, nem assim, os gemidos abrandavam. Pedi água, tinha a boca seca, aquele corredor sufocava, cada vez me parecia mais estreito, queria sair dali, não queria ouvir os gemidos, não queria sentir aquele cheiro, não queria sentir nada, desejei não ter 5 sentidos naquele momento, fechei os olhos e esperei.

Os minutos passavam, os heróis continuavam a correr mas ninguém me chamava. Comecei a sentir-me tonta, a ouvir tudo muito longe, agarrei a mão da pessoa que esteve sempre ao meu lado, com toda a força que consegui, e disse "acho que vou morrer aqui".

Chamaram-me finalmente. Depois de falar com a médica, levaram-me para uma sala, agora numa maca. Tiraram-me sangue e fizeram um ECG, pediram que me sentasse novamente na cadeira de rodas e que esperasse. Desta vez, não me sentei, não queria sentir os olhares, não queria voltar para o sítio dos gemidos que não me saíam da cabeça, continuava a agarrar o peito e a pensar que ia morrer. Mas ia aguentar tudo isso em pé, pelo menos enquanto me fosse possível.

Não sei quanto tempo passou até me chamarem novamente. Lá fui, desta vez a caminhar. Injetaram-me qualquer coisa, não senti a agulha mas senti o líquido a entrar, não perguntei o que é que me estavam a fazer. De seguida, tomei 2 comprimidos e, mais uma vez, não quis saber porquê, eu só tinha uma pergunta em mente "Isto vai-me salvar?".
Entretanto, vi um esboço de um sorriso que me aliviou e ouvi palavras que me ajudaram "vais ficar melhor sim, a médica já fala contigo".

A médica falou, não me deu qualquer explicação para o sucedido, as análises estavam boas e o ECG não indicava qualquer alteração. Tudo o resto que me foi dito eu já não me lembro de ouvir, os meus olhos começaram a ficar pesados, o corpo sem força, um sentimento de embriaguez apoderou-se de mim. Percebi, então, que me tinham dado calmantes ou sedativos.

Eu já não precisava de ouvir mais nada, já não precisava de estar ali. De um momento para o outro, passei a sentir-me nas nuvens, de um momento para o outro o coração já não parecia querer rebentar, de um momento para o outro as mãos já não tremiam e o braço já não estava dormente. Libertei finalmente a mão que agarrava o coração e deixei-me ir naquele estado esquizofrénico de sonolência, de leveza. Não me sentia viva, mas também não sentia medo de morrer, na verdade eu não sentia nada, e não sentir nada era tudo naquele momento.

Entrei no carro. 4 horas depois a viagem para Lisboa ia continuar, sabia que ia adormecer e pensei que quando acordasse tudo iria estar bem. Seria como se tudo não tivesse passado de um pesadelo. Os planos que tínhamos iniciado quando saímos de Mangualde não sofreriam qualquer alteração.

Chegámos, finalmente, a casa. Dei o beijo de boa noite aos meus, como sempre faço, e deitei-me. Irrefletidamente levei a mão ao peito e adormeci.

Acordei às 3h da manhã. O efeito dos comprimidos já tinha passado e voltei a sentir tudo de novo, mas não  da forma como eu esperava. Não senti o alívio de quem acorda de um pesadelo.
Às 3h da manhã acordei numa cama encharcada em suor, com todos os sintomas que me fizeram chamar aquela ambulância no IC. Às 3h da manhã senti novamente aquele medo, o incontrolável medo de morrer. Mas afinal, o que se passava comigo?

Rita

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